Literatura – Criação Social
Transgressão. Talvez um dia ela pareça tão decisiva para nossa cultura,
tão parte de seu solo quanto a experiência da contradição foi no passado para o pensamento dialético.
A transgressão não busca opor uma coisa a outra... não transforma o outro
lado do espelho... em uma extensão rutilante... sua função é medir a
excessiva distância que ela inaugura no âmago do limite e traçar a linha
lampejante que faz com que o limite se erga. Michel Foucalt
Como criação social, a literatura tornou-se um dos principais veículos de afirmação identitária nacional, tendo nos clássicos, textos nacionais que as nações literárias de maior capital cultural e, não raro, econômico, instituíram como textos intemporais e a-históricos, seu grande vetor de institucionalização. Neste sentido, o valor da obra, sua apreciação e sua posterior entrada para os cânones é condicionada por critérios que envolvem precisamente relações de poder e valores subjetivos de crença.
Os clássicos são textos nacionais fundadores, estendidos ao universo literário como não-nacionais. Em paises de colonização mais recentes, como o Brasil, o cânone é formado também por escritores engajados na busca de nacionalidade e de uma identidade cultural, permanecendo o critério elitista das escolhas devido a alta taxa de analfabetismo e a dificuldade da população ao acesso dos bens culturais.
É nesse sentido, que “a literatura é uma espécie de criação, ao mesmo tempo irredutivelmente singular e no entanto inelutavelmente coletiva” (CASANOVA, 2002, p. 218). O espaço literário organiza-se entre dois pólos: os com recurso e os desprovidos, constituindo-se necessariamente como um espaço de forças antagônicas, no qual Nem todos fazem a mesma coisa, mas todos lutam para entrar no mesmo curso (concursus) e, com armas desiguais, tentar atingir o mesmo objetivo: a legitimidade literária (Op. Cit., p.60).
Crítica e Nacionalidade
Machado de Assis, Sílvio Romero e José Veríssimo foram contemporâneos, conviveram – no final do século XIX e início do século XX – no Rio de Janeiro, capital político-cultural da República, e freqüentaram a mais prestigiosa instituição cultural do período, a Academia Brasileira de Letras. Os autores marcaram época e fizeram história na literatura brasileira levando adiante os ideais da "Geração de 1870", movimento cultural que teria trazido "um bando de idéias novas" (ROMERO, 1979: 163), no qual a questão nacional teve centralidade (ALONSO, 2002).
Aos intelectuais brasileiros dessa geração, críticos do romantismo e de sua ingenuidade nativista, era imperativo assentar as bases da nacionalidade, fincar os pilares que sustentariam a unidade (nacional) na diversidade e desigualdade reinantes, estabelecendo os liames entre o litoral e o sertão, entre o país aparente e o profundo, entre as "raças" (o branco, o índio e o negro) e entre as diferenças culturais e regionais. Era mister encontrar o que havia de necessariamente comum e culturalmente original, o que nos definisse, caso contrário, persistiria a sina de sermos uma sociedade transplantada, herdeira bastarda (e colonizada) da cultura européia. A literatura, nesse contexto, foi tomada pela crítica como documento histórico e instrumento de afirmação social.
A crítica atual aponta na obra de Machado de Assis, além de um "instinto de nacionalidade", certa desconfiança quanto aos rumos da nação e da comunidade possível a partir de uma sociabilidade baseada no favor, na aparência, na dissimulação etc. Já nas leituras de Sílvio Romero e José Veríssimo sobre a obra de Machado nota-se a busca – manifesta ou latente – do ingrediente da nacionalidade, seja na figura do mestiço romeriano, seja na do "herói" literário em Veríssimo.
Sílvio Romero indica em Machado de Assis o âmago e o estigma da nacionalidade, o mestiço Machado é – como o Brasil, com suas "raças" em mistura – algo ainda descaracterizado, nem branco, nem negro, nem europeu, "meio romântico", "meio realista", de "meias idéias", indefinido, impreciso, vago, que, na acidez de Romero, rapidamente descamba (na crítica do gosto) para o insípido. Como o herói Macunaíma -de Mário de Andrade (1978) -não tem caráter, daí o equívoco (generalizado) dos comentaristas ao indicar a repulsa de Romero à obra machadiana; na verdade, Romero não afirma simplesmente a falta de qualidades estéticas como privação de talento ou mau-gosto, observa a ausência de definição como forma essencial do autor e da obra, produto genuinamente brasileiro e mestiço, volúvel, inconstante. Daí, também, Romero afirmar que Machado – como prosador -foi quem mais fundo penetrou na alma humana, o escritor de origem pobre conhecia os meandros da vida pois compartilhava suas mazelas: o mestiço de "índole indecisa" sabia do que falava.
Todavia, se -para Romero – Machado encarnava tão bem o tipo brasileiro e mestiço, por que não encontrou nele as virtudes da alma nacional? Por que não o saudou como o escritor nacional por definição? Porque para Romero a mestiçagem não era o cerne mas o húmus da nacionalidade, a nação se ergueria com a mestiçagem e apesar dela, era uma sina e não uma dádiva.
De outro modo, José Veríssimo vê em Machado de Assis o "herói" incondicionado: alheio às imposições "sociais", avesso aos modismos, sem predecessores, indecifrável pelos "critérios nacionalísticos", demiurgo de si ("fez-se a si próprio"). Universal, ocupar-se-ia da alma humana acima de todo traço de brasileiro; incolor -em momento algum Veríssimo faz referência à cor de Machado -e motivo de orgulho, pois não parecia "simplesmente" brasileiro, não carregava os estigmas do seu lugar e da sua origem. Entretanto, Machado não deixava de se identificar com a idéia de nacionalidade projetada na obra de Veríssimo, encarnava a aspiração nacional justamente por destoar do meio, por fazer uso da "linguagem" de modo cosmopolita, porque não se parecia em nada com a nação existente, Machado se tornava – para Veríssimo – ícone da nação pretendida.
Sílvio Romero e José Veríssimo identificaram na obra de Machado de Assis a chave da nacionalidade, seja como fato da mestiçagem (Romero), seja como forma de aspiração ao universal: ambas, cada qual a seu modo, negavam a nação existente e projetavam os anseios daquela geração.
A LITERATURA BRASILEIRA NO SÉCULO XX
A Literatura Brasileira produzida até o início do século XX sempre foi importada, ou seja, seguia os modelos literários europeus contidos na Literatura Portuguesa, que nos foi imposta juntamente com tudo aquilo que nossos colonizadores imprimiram à nossa cultura durante o período em que Portugal dominou o Brasil politica-economica e socialmente. É por isso que tal Literatura nunca foi legitimamente BRASILEIRA, engajada à realidade; é por isso que o negro, o índio, os mestiços falavam e agiam como brancos nobres e cultos; por adotar apenas o padrão culto da Língua, a Literatura "Brasileira" sempre foi privilégio de uma elite (da elite para a elite). Em suma: a Literatura Brasileira nunca foi Brasileira!
Já a partir de 1901, porém, alguns dos escritores brasileiros mais importantes começam a elaborar obras que têm como tema sempre um assunto retirado da realidade do país, obras que contêm personagens das mais diversas regiões brasileiras, utilizando um vocabulário( uma linguagem) que reproduz fala das pessoas que habitam essas regiões: obras que, portanto, adotam todos os padrões de linguagem, o que as tornam obras lidas pelos mais diversos tipos de leitores. Uma Literatura Brasileira autêntica!
Outras novidades que vão aparecendo na obra literária do início do século: o autor tem LIBERDADE na escolha do assunto, da linguagem, da forma e do estilo que deseja dar a ela. Essa LIBERDADE é a essência da obra MODERNA. É por isso que podemos afirmar que o Modernismo no Brasil começa no início do século XX, através das obras que já possuem tal "essência": as de Euclides da Cunha, Graça Aranha, Lima Barreto, Monteiro Lobato, etc - os chamados "Pré-Modernistas".
As obras especializadas em Literatura Brasileira colocam como marco do Modernismo no Brasil a realização da "Semana de Arte Moderna", em 1922, e que o Modernismo encerra-se em 1945. A Literatura produzida de 1901 a 1922 seria um "Pré-Modernismo"e a produzida depois de 1945, um "Pós-Modernismo". Na verdade, porém, a Literatura Brasileira de 1901 até hoje pertence ao MODERNISMO, pois as características continuam as mesmas e as divisões citadas são meramente didáticas.
http://www.anpuhpb.org/anais_xiii_eeph/textos/st
http://br.monografias.com/trabalhos915/machado-verissimo-romero/machado-verissimo-romero2.shtml
http://rosabe.sites.uol.com.br/litbra.htm